(via koethe)
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“Até quando irá bastar o simples?”
É preciso ser capaz de perceber cada ponto em que seu corpo cansado dói. É necessário fechar os olhos, respirar e conhecer cada uma de suas vértebras - quantas são, seus tamanhos e pesos. E sentir que a lágrima também está presa ao ombro esquerdo, e ao osso maior da espinha dorsal. O caminho interior é estreito e imenso.
Não é deixar de ser intenso. É precioso.
É preciso ver nos homens o sutil cotidiano, e a candura das linhas finas próximas aos olhos. Quando eles riem, quando eles não dizem. Quando eles acreditam que ninguém os percebe - é preciso perceber, é precioso perceber! O que é pelo simples direito de ser, o que é intrínseco e absoluto.
Há um mantra, o guarde: o vazio é forma.
Eu também caminho sobre a urgência. E ainda possuo gritos. Não é a isso que me refiro, nunca é a isso que me refiro. Mas a capacidade de silenciar e compreender a revolta e o íntimo, ou a revolução outra e lhe fazer carícia, ou a mudez outra a respeita-la, a mudez minha e ser atenta.
Eu escolho a simples possibilidade de enxergar a vida, como diz o poeta, com os olhos nus.
C.
Estamos mudados. O digo como elogio. Estamos cansados. E jamais paramos. Quase sempre admiramos a paisagem, e os pés possuem bolhas. Mas ainda existe, como uma espécie de esperança revolucionária, em algum lugar íntimo de nós, o desejo pela emoção (e pela permissão de todo o sentimento). Que jamais, jamais, jamais nos rendamos à anestesia.
C.
Temo pouco. Não por ser uma mulher que não sofre abalos, mas por ser uma mulher sobretudo forte. E a força pela força pouca importância possui - entretanto falo sobre raízes profundas, ânimos íntimos, cores próprias.
Há o retorno: o reamor, reconhecimento, o reencontro.
Na amargura passada houve também a possibilidade de sentimento: a importância maior de se estar vivo é o sentir. E permanecer, ainda que na condição de sobrevivência, é uma ousadia especialmente bela. Estar onde estou faz de mim todos os dias uma mulher renovada capaz de entender a si mesma e amá-la; estar onde desejo estar, depois da dor, faz brotar flores.
Você soube, querido, que a natureza já refez das tragédias humanas paisagens singulares e belas? Tão belas quanto a mata virgem, o oceano profundo, os cristais de outros planetas.
C.
(via ponto-do-eixo)
(via moldada-em-maria)
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